Visão espírita do suicídio

- Luiz Antonio Santos Ribeiro - - 2 de Maio de 2014 | - 10:18 - - Home » 3ª Edição» Mais Glória - - Sem Comentários
Foto: http://dirceurabelo.wordpress.com

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Não é fácil lidar com essa questão. O suicídio é um assunto que costuma despertar emoções diversas, como medo e raiva. Suscita também uma série de ideias que se transformam em preconceito e discriminação, atingindo tanto a família quanto a memória do suicida. Em parte, isso se deve ao fato de este tema ser considerado tabu. Outras razões, principalmente de natureza religiosa, se somam, trazendo muito desconforto moral aos que ficam: familiares e amigos. Antes de tudo, é importante considerar o suicídio como um fato que faz parte da nossa realidade planetária, exigindo de nós sensibilidade e razão para melhor encararmos suas ocorrências e repercussões.

Daí a urgência em aprendermos a enfrentar melhor as tantas facetas da morte, para minorarmos em nós mesmos e nos outros os sofrimentos decorrentes de atos extremos, como a eliminação da própria vida física. Isso porque a morte, como mudança de estado da individualidade imortal, coloca a esperança como sentimento primeiro e fundamental, mesmo diante das mais insuportáveis dores. Em recente reportagem, divulgou-se que uma jovem, de 15 anos, suicidou-se com um tiro de revólver, dentro de uma escola, em Curitiba. Não houve grito nem pedido de socorro. Em silêncio, ela entrou no banheiro e se trancou em uma das cinco cabines reservadas. Sentada sobre o vaso sanitário, disparou contra a boca.

Suicídios desse gênero (com tiro, especialmente), em escolas brasileiras, não são comuns. “Três meses antes da tragédia, a jovem procurou os pais e pediu para que eles a levassem a um psicólogo. Dizia sentir-se triste e desmotivada. O pai passou a pegá-la na aula de pintura e levá-la, semanalmente, a um psiquiatra. No inquérito policial sobre o tal suicídio, apurou-se que ela tomava benzodiazepínicos (soníferos) para dormir, e outros fármacos para controlar a ansiedade que sentia”. Ante a difícil situação indagamos: como os pais podem proteger os filhos contra os desequilíbrios emocionais que assolam a juventude de hoje? Obviamente, precisam estar atentos. Interpretar qualquer tentativa ou anúncio de suicídio do jovem, como sinal de alerta. O ideal é procurar ajuda especializada de um psicólogo e, para os pais espíritas, os recursos terapêuticos dos centros que frequentam. Aproximar-se, mais amiúde, do filho que apresenta sinais fortes de introspecção ou depressão. O isolamento e o desamparo podem terminar em aguda depressão e ódio à vida.

“Como os pais podem proteger os filhos contra os desequilíbrios emocionais que assolam a juventude de hoje?”

É evidente que sugerir serem os pais os únicos responsáveis pelo autocídio de um filho, é algo muito delicado e preocupante, pois trata-se um ato pessoal de extremo desequilíbrio da personalidade, gerado por circunstâncias atuais ou por sequelas de existências pretéritas. Se há culpa dos pais, atribui-se à negligência, à desatenção, à não percepção das mudanças no comportamento do filho e a tudo o que acontece à sua volta. Sobre isso, estamos convictos de que a sociedade, como um todo, é, igualmente, culpada. Inobstante colocarem o fardo da culpa nos pais em primeiro lugar, reflitamos: quem pode controlar a pressão psicológica que uma montanha de apelos vazios faz na cabeça dos jovens, diariamente? O suicídio é um ato exclusivamente humano e está presente em todas as culturas. Suas matrizes causais são numerosas e complexas. Os determinantes do suicídio patológico estão nas perturbações mentais, depressões graves, melancolias, desequilíbrios emocionais, delírios crônicos, etc. Algumas pessoas nascem com certas desordens psiquiátricas, tal como a esquizofrenia e o alcoolismo, o que aumenta o risco de suicídio. Há os processos depressivos em que se constatam perdas de energia vital no organismo, desvitalizando-o e, consequentemente, interferindo em todo o mecanismo imunológico do ser.

suicidioEm termos percentuais, 70% das pessoas que cometem suicídio, certamente sofriam de um distúrbio bipolar (maníaco-depressivo); ou de um distúrbio do humor; ou de exaltação/euforia (mania), que desencadearam uma severa depressão súbita, nos últimos minutos que antecederam aos de suas mortes. O suicídio pode ocorrer, tanto na fase depressiva, quanto na fase da mania, sempre consequente do estado mental. O suicida é, antes de tudo, um deprimido, e a depressão é a doença da modernidade. O suicida não quer matar a si próprio, mas alguma coisa que carrega dentro de si e que, sinteticamente, pode ser nominado de sentimento de culpa e vontade de querer matar alguém com quem se identifica. Como as restrições morais o impedem, ele acaba se autodestruindo. Assim, «o suicida mata uma outra pessoa que vive dentro dele e que o incomoda, profundamente. Outra coisa que deve ser analisada é a obsessão que poderia ser definida como um constrangimento que um indivíduo, suicida em potencial ou não, sente, pela presença perturbadora de um obsessor.

A religião, a moral, todas as filosofias condenam o suicídio como contrário às leis da Natureza. Todas asseveram que ninguém tem o direito de abreviar, voluntariamente, a vida. Entretanto, por que não se tem esse direito? Por que não é livre o homem de pôr termo aos seus sofrimentos? Ao Espiritismo estava reservado demonstrar, pelo exemplo dos que sucumbiram, que o suicídio não é uma falta somente por constituir infração de uma lei moral – consideração, essa, de pouco peso para certos indivíduos – mas, também, um ato estúpido, pois que nada ganha quem o pratica. Antes, o contrário, é o que se dá com eles, na existência espiritual, após ato tão insano. Temos notícia, não somente pelo que lemos nos livros da Doutrina Espírita e que nos advertem os Espíritos Superiores, mas pelos testemunhos que nos dão esses infelizes irmãos, narrando tristes fatos que eles mesmos nos põem sob as vistas, em sessões de orientação às entidades sofredoras. Sob o ponto de vista sociológico, o suicídio é um ato que se produz no marco de situações anômicas, em que os indivíduos se veem forçados a tirar a própria vida para evitar conflitos ou tensões inter-humanas, para eles insuportáveis.

Em termos percentuais, 70% das pessoas que cometem suicídio, certamente sofriam de um distúrbio bipolar…

O pensador Émile Durkheim teoriza que a «causa do suicídio, quase sempre, é de raiz social, ou seja, o ser individual é abatido pelo ser social. Absorvido pelos valores (sem valor), como o consumismo, a busca do prazer imediato, a competitividade, a necessidade de não ser um perdedor, de ser o melhor, de não falhar, o jovem se afasta de si mesmo e de sua natureza. Sobrevive de ‘aparências’, para representar um ‘papel social’ como protagonista do meio. Nessa vivência neurotizante, ele deixa de desenvolver suas potencialidades, não se abre, nem expõe suas emoções e se esmaga na sua intimidade solitária.» O Espiritismo adverte que o suicida, além de sofrer no mundo espiritual as dolorosas consequências de seu gesto impensado, de revolta diante das leis da vida, ainda renascerá com todas as sequelas físicas daí resultantes, e terá que arrostar, novamente, a mesma situação provacional que a sua flácida fé e distanciamento de Deus não lhe permitiram o êxito existencial.

É verdade que após a desencarnação não há tribunal nem juízes para condenar o espírito, ainda que seja o mais culpado. Fica ele, simplesmente, diante da própria consciência, nu perante si mesmo e todos os demais, pois nada pode ser escondido no mundo espiritual, tendo o indivíduo de enfrentar suas próprias criações mentais. «O pensamento delituoso é assim como um fruto apodrecido que colocamos na casa de nossa mente. A irritação, a crítica, o ciúme, a queixa exagerada, qualquer dessas manifestações, aparentemente sem importância, pode ser o início de lamentável perturbação, suscitando, por vezes, processos obsessivos nos quais a criatura cai na delinquência ou na agressão contra si mesma.» A rigor, não existe pessoa «fraca», a ponto de não suportar um problema, por julgá-lo superior às suas forças. O que de fato ocorre é que essa criatura não sabe como mobilizar a sua vontade própria e enfrentar os desafios. Joanna de Angelis assevera que “o suicídio é o ato sumamente covarde de quem opta por fugir, despertando em realidade mais vigorosa, sem outra alternativa de escapar». Na Terra, é preciso ter tranquilidade para viver, até porque, não há tormentos e problemas que durem uma eternidade. Recordemos que Jesus nos assegurou que «O Pai não dá fardos mais pesados que nossos ombros» e «aquele que perseverar até o fim, será salvo».

Por essa razão todos nós devemos orar por aqueles que cometeram o suicídio pelo fato de sabermos que estão vivendo no plano espiritual o drama de terem cometido um grave engano, e os nossos sentimentos poderão ajudá-los a se reequilibrarem amenizando seu drama. Especialmente os familiares e amigos, os que sentem o amor familiar quando direcionam os seus sentimentos nas preces, os suicidas recebem os bálsamos dos bons pensamentos. Tenhamos a certeza da justiça e bondade de Deus que oferecerá oportunidades novas para que os nossos irmãos suicidas se recuperem através da luta em uma nova existência.

Luiz Antonio Santos Ribeiro

Por: Luiz Antonio Santos Ribeiro

Natural da cidade de Campo do Brito-Se, casado com Dona Sandra Mara, pai de três filhos, funcionário público estadual, administrador de empresas, estudioso da doutrina espírita, dirigente do Centro Espírita Unidos na Fé, membro atuante do quadro de oradores da Federação Espírita de Sergipe.

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