Um saudoso adeus

- Camilla - - 5 de julho de 2016 | - 2:47 - - Home » 15ª Edição» Mais Glória - - Sem Comentários

Rubem-Alves.jpgRubem, abri um de seus livros hoje e senti o cheiro das páginas. Como nunca te conheci fisicamente, associei como o seu cheiro, por esse ser tão específico. Senti saudade, Rubem. Saudade de como você me acolheu com suas palavras, sua filosofia, seu pedagogismo.

Lembro-me muito bem, quando eu ainda cursava o Ensino Médio, de saborear seus livros durante aulas modorrentas que carregavam consigo exatamente o oposto do que você me ensinava – e ensinava com tanta beleza. Aulas que passavam uma educação ossuda, pontuda, indeglutível. Que não ensinavam o aprendizado, por assim dizer, mas obrigavam a todos em sala de aula a decorar os detalhes mais bestiais acerca de Exatas e Humanas. Detalhes que talvez nunca saíssem de folhas de papel, não por serem desnecessários, mas pela forma como nos eram impostos. Detalhes que engolíamos goela abaixo e deveríamos vomitar nos testes.

Mas você, Rubem, você me ensinou a diferença entre ferramentas e brinquedos. Você – leitor antropofágico como era – digeriu a teoria de Santo Agostinho e me ensinou de forma leve. Teoria que consiste em separar o útil do usufruível; ou seja, distinguir o que é necessário do que é prazeroso. Assim como as ferramentas são úteis e os brinquedos são divertidos. As ferramentas são aquilo que nos servem como extensões do nosso corpo para executar tarefas necessárias – como uma maçaneta, um coador, uma chave de roda. Os brinquedos estão nas atividades prazerosas – como um bambolê, um giz de cera, um livro lido com amor. Um não é mais importante que o outro, são complementares. Se os livros, por exemplo, forem tratados como ferramentas, sem amor, servirão pra dar encalço a uma mesa bamba ou encalço a uma mente sem ideias próprias. “As ferramentas não nos dão razões para viver; são chaves para a caixa dos brinquedos” – você escreveu. O útil deveria então andar sempre junto ao usufruível. A didática deveria ser execultada com prazer, pois assim poderia de fato ser absorvida. Poderia nos abrir a caixa de brinquedos. Assim aprendi contigo.

Tanto me ensinou que te considero meu melhor professor. Lendo seus livros amei a literatura como te amei. Amei a Nietzsche e o li com simplicidade (o que antes me parecia impossível), porque você o amava e me mostrava que linda criança ele transparecia ser, como tantos outros autores que você adotou. E que linda criança você trasparecia ser! Brincando com as palavras, plantando aprendizado, sujando as mãos de terra sem remorso.

O que eu mais desejo hoje pra você, Rubem, é que sempre leiam seus livros com prazer. Que no céu haja várias panelas de barro pra que cozinhe sua famosa moqueca. Que encontre lá os autores que tanto amou em vida e que conseguiu mostrar como eram amáveis com uma simples nota de rodapé em seus livros. Que no céu haja o maior e mais lindo jardim, pra que você possa continuar sua jardinagem.

É triste pra mim não ter te conhececido fisicamente, mas te conheci antropofagicamente na sua literatura. Gostaria de ter lhe falado sobre o jardim que plantou em mim, suas ideias que misturei com as minhas e que me tornaram mais lúcida, a luz que me deu nos tempos mais nebulosos que vivi. Tenho em mim uma gratidão imensa.

Obrigada, Rubem. Prometo repassar com prazer tudo o que me ensinou.

Rubem Alves foi leitor, escritor, educador, filósofo, teólogo, psicanalista, poeta. Mineiro, esposo, pai, avô. Ganhador da Medalha Carlos Gomes e do literário Prêmio Jabuti. Publicou mais de 120 livros, traduzidos do português para 6 idiomas. Um dos intelectuais mais respeitados do Brasil e mais amado pelas crianças. Confessamente grato pela vida.

15 setembro de 1933 – 19 de julho de 2014

Camilla

Por: Camilla Galvão

Apaixonada pelo universo das letras e do cinema.

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