Sobre a copa que não teve

- Mariana Ramalho Zappa - - 2 de julho de 2014 | - 10:04 - - Home » 14ª Edição» Mais Glória - - Sem Comentários

copa_3“Despertador toca, é gol, helicóptero zunindo, filho da mãe, Neymar acaba de to­mar café da manhã, greve em mais uma instituição pública, será que sai o hexa?”

O dia amanhece quente e acolhedor na Praça Saens Peña, na Tijuca, “a zona sul da zona norte”, dizem as más línguas. Os mortos-vivos caminham em direção a la­buta, tem cheiro de pão assando e o me­trô habitualmente cheio. Tudo mais ou menos mais do mesmo. A exceção, umas bandeiras tremulando aqui e ali, meia dú­zia. Me vê um pão de queijo e um mate moço, é veneno matinal, que vai entran­do junto com poeira e CO2 pelos orifícios. Como é sujo e feio esse Rio de Janeiro, gosto da sua estranheza.

Mais helicópteros, rogai por nós! Que barulho detestável. O Maracanã é logo ali, 10 minutos a pé. Aposto que vai ter manifestação hoje, é de praxe. Se meu avô estivesse vivo ele falaria que essa copa do mundo é uma grande besteira, “foi em 50, por que não seria agora?” ou “bom mesmo é o fluminense, que só me traz alegria e me faz gastar pouco dinhei­ro”. Tenho certeza que o doutor iria escu­tar por esses dias o rádio de pilha, verde, de plástico. Torcedor incontornável, qua­se um Nelson Rodrigues, apaixonado por um gramado. Mas não menos indignado pelos milhões do estádio e pela merreca da aposentadoria, “esmola pro pobre do velho que só gasta com hospital e remé­dio”.

Fico imaginando quantas partidas o apartamento da tijuca, assim como o avô, devem ter visto passar. Vistosa memória dos anos 50, elevador antigo de grade dourada. Já devem ter passado botafo­guenses, tricolores, vascaínos e mesmo os flamenguistas, com os pés cansados e a garganta frouxa pós celebração de Zicos, Garrinchas, Romários, mineiros, baianos, pernambucanos. Pela celebra­ção dos homens comuns com magia nos pés, não pela celebração dos milionários astros que se proliferam pelos intervalos televisivos.

E o que a rua externa pouco se pa­rece com final de campeonato carioca, a festa das massas, isso é apatia em verde­-amarelo. É comparar réveillon em copa com quermesse de Igreja. Porque o que faz a virada ser tão emocionante não são os fogos, ensurdecedores, mas a chama de esperança dos entusiastas, dos bêba­dos, dos que festejam a vida que está por vir. O que se vê na rua não é festa, é, no máximo um agradecimento por largar mais cedo na firma.

A copa mal começou e o povo já atesta, não teve copa. 200 milhões em ação, pra frente Brasil. Nos enfiaram essa corneta verde e amarela goela abaixo, vo­mitaremos indignação.

Mariana Ramalho Zappa

Por: Mariana Ramalho Zappa

Mariana Ramalho Zappa estudante de Jornalismo na Escola de Comunicação da UFRJ, blogueira dona do Grandma Stole My Closet e fã dos Beatles

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