O Sertanejo Suassuna

- Camilla - - 5 de julho de 2016 | - 11:59 - - Home » 15ª Edição» Homenagens» Mais Glória - - Sem Comentários

Ariano Suassuna001Perdeu cor o cenário literário em 2014 com a morte de três grandes escritores brasileiros: João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna. Grande desfalque para o país, que teve de se despedir de três membros de academias literárias que trabalharam em função da cultura até seus últimos dias.

A mais recente perda foi o paraibano Ariano Suassuna, em 23 de julho, aos 87 anos. Ariano, que carregava consigo o nordeste aonde quer que fosse. Não só nos seus livros e palestras espetaculares como até mesmo nas suas roupas, que ele fazia questão que fossem feitas por uma costureira popular do Recife, e estas sempre correspondiam a uma espécie de média do uniforme do brasileiro comum, para que nem nas suas vestimentas ele se distanciasse da sua cultura de origem.

Ariano Suassuna escrevia peças teatrais, romances e poesias ambientadas no sertão, onde o autor foi criado, relatando a sociedade rural de forma leve, poética, cômica e inventiva. Ganhou projeção nacional com a peça O Auto da Compadecida, estreada no Recife e logo encenada em todo o país, tendo adaptações de enorme sucesso para a TV e o cinema. Dificilmente encontramos alguém que não conhece a cômica obra O Auto da Compadecida, que retrata as aventuras dos personagens João Grilo e Chicó – Suassuna os descrevia em palestras como dois mentirosos do bem, malandros que inventavam para sobreviver. O escritor revivia o sertanejo de tal forma em seus livros que se inspirava muitas vezes em pessoas que encontrou durante sua vida, como o Chicó, cujo ele disse ser o maior e mais divertido mentiroso que já conheceu, que realmente se chamava Chicó e era de Taperoá, assim como na obra. O Romance d’a pedra do reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta também é um romance muito conceituado de Suassuna; na sua narrativa constrói um monumento literário à cultura caboclo-sertaneja nordestina, sendo essa uma obra que revive a história do sertão pernambucano, inspirada na literatura de cordel, nos repentes e nas emboladas. O autor levou mais de uma década para concluir o romance, só após perceber o que o levou a escrevê-lo: a morte do seu pai, João Suassuna, por motivos políticos; perda enfrentada quando tinha apenas três anos de idade. Essa tragédia influênciou fortemente toda sua obra. De grande influência também foi o Catolicismo – foi católico, devoto de muitos santos, e a religiosidade marcou seu estilo de escrever. Construiu um santuário ao ar livre, aberto ao público, em São José do Belmonte, interior de Pernambuco, onde se passa parte do Romance d’a pedra do reino.

Os feitos de Suassuna não param por aí. Ele foi Secretário de Cultura de Pernambuco e Assessor do político recém falecido Eduardo Campos (que conhecia desde menino e tinha uma ligação fraternal) até abril deste ano, e muito fez em seu posto. Criou a aula-espetáculo Circo da Onça Malhada, levando as palestras e apresentações de música, dança e poesia por quase todos os municípios de Pernambuco, oferecendo uma alternativa cultural que se baseava na originalidade nordestina. Essa premissa também esteve presente décadas antes, em 1970, no Movimento Armorial, idealizado por Ariano.

O Movimento Armorial tinha como objetivo criar uma arte de raiz, simples e popularmente nordestina. O movimento abrangeu as mais variadas formas de arte e abraçou artistas já renomados e novos grupos, enriquecendo assim o cenário cultural nordestino e trazendo para essa cultura olhos de todas as partes do Brasil.

Por onde passou, Ariano Suassuna foi reconhecido e gratificado por seu trabalho de grande utilidade pública. Foi membro da Academia Paraibana de Letras, da Academia Pernambucana de Letras e da Academia Brasileira de Letras. Mesmo com tanto reconhecimento, Suassuna era um homem notoriamente simples e humilde e jamais se perdeu da sua cultura de raiz. Sequer saiu do Brasil, por não gostar de viajar e por não ver necessidade de deixar sua tão amada terra. Foi um homem cômico, que sempre arrancava risadas contando seus causos, ganhando assim a simpatia do seu público, que soube o retribuir. Tão fácil isso é de se notar, que se qualquer um for ao Recife verá a quantidade de locais e projetos que carregam seu nome, homenageando o escritor, como no Galo da Madrugada neste último carnaval, por exemplo. Deixa saudades o artista Suassuna, mas deixa também um dos maiores legados artísticos e literários do Brasil, pois ele levou a cultura nordestina para todos os cantos do país, a plantando em cada brasileiro que assistiu suas peças, apreciou seus livros, ouviu suas tão engraçadas palestras ou abraçou sua poesia. Cabe principalmente a nós, nordestinos, mantermos vivo este bonito legado, jamais escondendo nossa arte e pondo à vista de todos essa riqueza que está impregnada até mesmo no som das nossas palavras, no nosso sotaque. Ariano Suassuna é mais um exemplo que nos faz orgulhosos de sermos nordestinos, seja de berço ou de coração.

Camilla

Por: Camilla Galvão

Apaixonada pelo universo das letras e do cinema.

Enium Interativa Criação de sites

Deixe seu comentário!

Para: O Sertanejo Suassuna