“Mas o Brasil não é racista”

- Emilly Firmino - - 26 de junho de 2014 | - 12:11 - - Home » 12ª Edição» Mais Glória - - Sem Comentários

racismoÉ inocência dizer que no Brasil a margem não tem cara, cor, es­tereótipo. A diferença do país quando comparado a outros espaços é que o racismo é tão presente em atitudes cotidianas que pra quem não sente (até mesmo para aqueles que sentem) por vezes passa como habitual. Trata-se aqui de um país misto que vive sua cultura entre paredes, mas nega e oprime para sus­tentar os (falsos) valores sociais que carrega historicamente. É quando um jovem negro da periferia é revistado na mesma rua que um branco que passa despercebido, é quando se escolhe quem pode ou não entrar em um sho­pping e os autorizados são majoritaria­mente brancos. O racismo não existe no Brasil até que invada o espaço das elites, até que leve o povo trabalhador aos espaços esbranquiçados. E o que acontece quando se proíbe a favela de manifestar sua cultura e eles invadem um espaço que é tão dele quanto dos outros?

Ano passado, 2013, discutiu-se no Poder Público Municipal de São Paulo o projeto de lei nº 02/2013. De autoria do Coronel Camilo e do Conte Lopes, o projeto proibia a utilização de vias pú­blicas para realização de bailes funks e qualquer outro evento musical não au­torizado pela prefeitura. Apesar de ter sido vetado por Haddad, que afirmou o baile como uma manifestação cultural da juventude da periferia, quando se trata de favela não precisa de lei certa pra desencadear opressão.

Bailes fechados, em rota alterna­tivas os jovens passaram a marcar nos shoppings da cidade para se reunirem. Assim surgiram os rolezinhos, que cres­ceram a ponto de modificar o perfil dos frequentadores dos shoppings; a pon­to de incomodar bastante uma parcela da sociedade que vive dentro de uma bolha e só lembra da periferia para falar de bandido. Em conjunto a isso surge a mídia, que assim como lá nas Jornadas de Junho estereotipou negativamente os rolezinhos para depois ‘apoiar’ e ne­gar o racismo que compartilha no horá­rio nobre de sua programação (no não nobre também).

O que se pode perceber desde as manifestações de junho é que fatos que antes passavam despercebidos tem sido muito mais observados e discutidos pela população. Se por um lado uma parcela dela queria a juven­tude da periferia fora dos seus espaços aburguesados, uma outra se reuniu e inúmeras manifestações em solida­riedade surgiram por todo o país. São momentos como esse que nos fazem refletir como os espaços no Brasil são construídos para manter suas elites longe de tudo aquilo que lhe tire de sua falsa condição de evoluída.

Quer a elite (e aqueles que con­cordam seu discurso) queria ou não, é preciso sim que a juventude se mani­feste onde quer que seja, é preciso que os espaços sejam ocupados. É preciso levar o debate à sociedade e fazer per­ceber que essa falsa ordem que esta­belece a construção social do Brasil não beneficia em momento nenhum ao povo trabalhador. É preciso refletir e perceber que não é o rolezinho que corrompe a ordem, é a ordem que está totalmente desordenada a medida que oprime a liberdade em guetos.

Emilly Firmino

Por: Emilly Firmino

Sergipana, semi-cinéfila, amante da música e dos bons, estudante de jornalismo

Enium Interativa Criação de sites

Deixe seu comentário!

Para: “Mas o Brasil não é racista”