Descansar em Paz?

- Kaippe Arnon Silva Reis - - 22 de outubro de 2016 | - 8:36 - - Home » 25ª Edição» Homenagens» Mais Glória - - Sem Comentários

domingos-montagner-no-mais-voce-840x472No dia 15 de setembro, a vida imitou a arte mas infelizmente esquecendo do seu final feliz. O ator Domingos Montagner desencarnou ao ser puxado por uma correnteza do rio São Francisco, em Canindé do São Francisco, no Alto Sertão Sergipano, no intervalo das gravações da telenovela Velho Chico, da Rede Globo. Domingos interpretava Santo que havia desaparecido neste mesmo rio na trama, porém o personagem reapareceu certo tempo depois. Infelizmente, o ator não teve a mesma sorte.

Logo após as primeiras informações, muito antes da confirmação da morte, a mídia focou neste trágico acontecimento e alguns canais de televisão passaram a dedicar horas de sua programação a isto. Sites passaram a especular o que aconteceu e diversos boatos surgiram sobre, inclusive, o reaparecimento do ator, mas nenhum destes foi confirmado. A Rede Globo deu apenas uma nota sobre o caso ao pausar a sua programação no meio da tarde com um Plantão informando o desaparecimento de Montagner.

A noite, o Plantão da emissora voltou a interromper brevemente a programação para confirmar a morte do ator de Velho Chico nas águas do rio São Francisco. Enquanto isto, as concorrentes se dedicavam a fazer a cobertura ao vivo tentando entrevistar amigos do ator, populares locais e fontes oficiais.

Após a confirmação da morte, imagens que seriam do cadáver começaram a circular pelo Whatsapp. Nenhuma era real mas chamava a atenção a necessidade de informações cada vez mais rápidas e cada vez mais detalhadas sobre tudo, mesmo que isso invadisse a privacidade do ator e de sua família.

Chega a ser preocupante como a população clama por notícias sensacionalista, transformando uma tragédia em um espetáculo. Isto se dá por estarmos vivemos numa sociedade de consumo tão extrema que precisamos dar um check-in e explorar ao máximo até as tragédias. É necessário ter a informação de maneira rápida, e de preferência ser o primeiro a tê-la, por vezes de maneira passiva e sem refletir sobre o que está sendo passado ali.

Vale muito mais diversos likes, visitações e pontos de audiência ao exibir o vídeo de Camila Pitanga chorando e se lamentando num momento pós traumático do que respeitar a dor de alguém que viu um amigo ser engolido pelo rio, e que também poderia ter morrido naquele local.

A linha editorial de programas como Cidade Alerta, A Tarde é Sua, Tolerância Zero ou Brasil Urgente precisam de momentos como estes para criar um espetáculo. Eles se utilizam de mazelas do nosso cotidiano para transformar estes momentos em algo vendável, em algo que a população queira consumir. Infelizmente o sangue é o principal tempero destes programas.

Mas, infelizmente, tal falta de bom senso não se limita à televisão e é comum que, em diversos sites de notícias, fotos de pessoas mortas em acidente sejam expostas, mesmo que estas sejam protegidas por lei. Isto lembra ainda os paparazzi, que têm a sua origem do italiano e que se refere a mosquitos que ficam em volta da pessoa, aborrecendo-a. Os paparazzi da morte são ainda piores que os dos famosos, pois eles circundam e se aproveitam de momentos da dor e sofrimento de terceiros.

O lucro da empresa precisa do consumo do cidadão e para isto mostra o que de pior pode haver na disseminação de informações. Para isto, diversos dilemas éticos da comunicação são feridos por esta instituição que deveria servir à população.

Estamos numa época muito triste da história mundial para a comunicação. Se, nos primórdios do jornalismo, as folhas votantes demoravam meses para noticiar o que acontecia nas grandes navegações, hoje a mídia tem necessidade do furo jornalístico em instantes. Há uma necessidade de ser o primeiro a dar uma notícia pois isto vende jornal, dá audiência. O pior dos problemas é que muitas vezes não se importam com o que vem depois.

Vivemos numa época que por uma foto matamos a Princesa Diana, por audiência invadimos o enterro de Michael Jackson e paramos a programação para exibir o sequestro da menina Eloá. Para termos um furo jornalísticos importunamos diversas famílias que acabaram de passar por grandes traumas e criamos abutres que sobrevoam onde maior estiver o sensacionalismo.
Vivemos numa sociedade que sequer pausa para analisar o que está consumindo e que nem se põe no lugar do outro para respeitar o digno “descanse em paz”.

Kaippe Arnon Silva Reis

Por: Kaippe Arnon Silva Reis

Comunicador formado pela Universidade Federal de Sergipe e artista nas horas vagas.

Enium Interativa Criação de sites

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