Da Democracia Corinthiana à redemocratização nacional

- Kaippe Arnon Silva Reis - - 27 de junho de 2014 | - 3:06 - - Home » 13ª Edição» Bagaceira Talhada» Mais Glória - - Sem Comentários

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A frase de efeito “A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura” foi uma das mais esbravejadas por manifestantes dos protestos de junho pelo país a fora. Além da Globo, outras empresas e pessoas de relevância apoiaram esse momento sombrio da nossa história. Quem ia de encontro poderia “sumir” ou morrer de repente como aconteceu com a estilista Zuzu Angel, que ao se queixar em público sobre o desaparecimento do seu filho desencarnou em um acidente de carro. Outros como o empresário Mário Wallace Simonsen acabaram sofrendo um cerco financeiro. Simonsen era abertamente pró democracia e usava a sua TV Excelsior para criticar o golpe e em 1965 a concessão de sua empresa de aviação “Panair” foi revogada. Alguns dias após a cassação, o senhor Simonsen sofreu infarto em Paris.

Numa época em que times de futebol vão à justiça para não serem rebaixados e holofotes se voltam para um jogador para saber se ele usou ou não uma roupa de baixo para agradar um patrocinador, fica difícil imaginar que um time, apoiado por seus jogadores, tenha esbravejado contra os militares. Os mais novos devem não se lembrar da Democracia Corinthiana, movimento pró-democracia no início da década de 80.

Em 1981, após Vicente Matheus ter se perdurado na presidência por anos, o Corinthians foi rebaixado para a Taça de Prata, similar à série B do Campeonato Brasileiro, fazendo com que Waldemar Pires assumisse o cargo. O sociólogo Adilson Monteiro Alves assumia a diretoria de futebol e as decisões pararam de serem tomadas de cima para baixo e o voto foi adotado para fazer decisões importantes. Enquanto no país não se votava nem para prefeito, os jogadores começaram a tomar decisões como, por exemplo, contratação de outros jogadores e se eles iriam se concentrar antes dos jogos ou não.

Enquanto Lula seguia com suas greves, o Ultraje a Rigor dizia que éramos “inútil”, o time fazia a sua parte. Convocaram o jovem publicitário Washington Olivetto que idealizou o slogan “Democracia Corinthiana” que seria estampado em uniformes e traduzia o vivido pelo time.

Quando a eleição pra governadores foi possível em 1982, o time entrou em campo com a inscrição “Dia 15 Vote” convocando uma das maiores torcidas do país a fazer valer a democracia nas urnas. Quando os militares ficaram sabendo, a chefe do departamento Solange Hernandes ligou para a diretoria para saber o que seria aquela inscrição nos uniformes e ordenou a retirada, assim como ela fez com diversos discos, livros e peças de teatro.

Os jogadores do time desta fase tinham consciência política e sabiam que o que acontecia no planalto era errado. Sócrates, Wladimir, Casagrande e Zenon eram os jogadores que encabeçavam a Democracia dentro e fora das quatro linhas. Títulos estatuais eram vencidos, goleadas dadas e quando perdiam um jogo, a mídia, que em maioria ficou do lado dos militares, criticava alegando que democracia não seria algo tão glorioso quanto alegavam.

Em 1983, nos gramados, o Corinthians vencia o São Paulo na final do campeonato paulista e, em Brasília, o deputado Dante de Oliveira apresentava uma emenda à constituição para que a população escolhesse o presidente novamente. O povo foi às ruas pedindo “Diretas Já” para que os parlamentares votassem a favor. As passeatas cresciam cada vez mais mostrando a insatisfação da população com os militares. Brizola, FHC e Lula estavam nos palanques levando a esperança de que juntos levariam o país à redemocratização. Ao lado deles estava Sócrates, que acompanhado dos colegas do time, sempre acompanhava os comícios e em um deles levou o publico a loucura dizendo que se a fosse aprovada a emenda ele não iria jogar fora do país.

No dia 25 de abril de 1984, a população brasileira estava em festa, era impossível que com tamanha comoção popular o congresso não fosse aprovar a PEC. Porém, eram necessários 320 votos a favor e apenas 298 deputados votaram “sim”. O país acordou sem acreditar no que tinha acontecido. A democracia continuaria sendo apenas corinthiana, mas não por muito tempo.

Após derrocada política, Sócrates foi para a Itália, Casagrande para o São Paulo. Já no âmbito político, no ano seguinte, o primeiro presidente não militar desde o golpe de 1964 foi eleito. Tancredo Neves era a esperança. Porém com a sua morte nas vésperas da posse, o seu vice José Sarney, que era apoiado pelos militares, assumiu a presidência dando fim à ditadura militar e em 1988 a redemocratização estaria completa com a nova Constituição Federal.

Kaippe Arnon Silva Reis

Por: Kaippe Arnon Silva Reis

Comunicador formado pela Universidade Federal de Sergipe e artista nas horas vagas.

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