Almir do Picolé – Um eterno Papai Noel

- Edson Magalhães Bastos Júnior. - - 14 de julho de 2016 | - 11:10 - - Home » 17ª Edição» Mais Glória - - Sem Comentários

060010Em todas as cidades brasileiras que passaram por um grande crescimento urbano é comum os seus cidadãos viverem diante de um ritmo acelerado de atividades econômicas, culturais, sociais de uma forma geral. O tempo passa diferente nesses lugares , quando comparamos com aquelas paisagens mais “tranquilas” de cidades menores. A experiência do transito por exemplo é muito intensa, e, como esse crescimento muitas vezes traz em seu seio o crescimento da violência, cria-se um estado de atenção que muitas vezes evolui para um pânico generalizado. Motoristas em geral ficam mais atentos aos semáforos, que se transformou num grande mercado ambulante, com vendedores, anunciantes, flanelinhas, lavadores de para-brisas e artistas saltimbancos e malabares, pedintes em geral, dentre outros.

Aracaju já integra esta realidade há muito tempo, e em meio a esse cenário muitos de nós, cedendo a um turbilhão de sentimentos como medo, pressa, raiva, ansiedade, numa espécie de anestesia do “mundo lá fora”, passamos despercebidos por homens e mulheres que lutam no mesmo espaço para deixar mensagens um pouco destoantes daquelas que estamos acostumados a ver.

060009Nesse grupo, quantos de nós já não fomos surpreendidos nos semáforos pela figura de um senhor que doa duas canetas, um pequeno papel com uma simples mensagem de texto. Havaianas gastas, óculos de grau acentuado, camisa de malha bem simples propagandeando algo que parece ser uma creche, e frases sobre sua luta e sua causa. Seu nome completo talvez os motoristas não conheçam, mas um dos seus títulos é “Almir do Picolé”. Na luta para garantir o básico a dezenas de famílias, faz dos sinais de trânsito um espaço que possibilita a sobrevivência do sonho de milhares de crianças.

Não, não se trata de um bem sucedido empresário do segmento de sobremesas geladas. O Sr. Almir Almeida Paixão coordena, juntamente com um grupo de voluntários, a Creche Ação Solidária Almir do Picolé. Como ele ganhou esse título? É uma longa história que tentaremos fazer caber numa sinopse aqui. Sim, porque a vida desse sujeito renderia tanto um clássico dramatúrgico como uma grande aventura de superação inspiradora para todos nós.
Essa história começa no final da década de sessenta, na capital sergipana, terra natal do nosso personagem. Aos quatro anos de idade enfrentou seu primeiro grande drama: o abandono, fruto dos desajustes conjugais entre seus pais consangüíneos. Almir e sua irmã, de apenas dois anos, são deixados no terminal rodoviário no centro da cidade. Ambos são obrigados a protagonizarem talvez o momento mais difícil de suas vidas: sobreviverem, dividindo com outros iguais, os espaços mórbidos das calçadas, sob o frio constante que chegava de mãos dadas com o medo e a fome.

Momentos dificílimos foram intensamente vividos, até os irmãos serem alcançados por um projeto social que visava abrigar meninos de rua, sendo conduzidos para o “juizado de menor”. Meses depois, fruto de suas condutas, são transferidos para uma espécie de orfanato onde conhecem servidores generosos, responsáveis por crianças que também amargavam a dor do abandono, na maioria dos casos órfãos de pais vivos.

060004Aos 13 anos de Almir, os irmãos voltam para as ruas onde a misericórdia divina cruza seus destinos com o do “Sr. Bispo”, notável empresário, do segmento de panificação, o qual acolhe como filhos Almir e sua irmã. No município de Lagarto/SE, terra nativa do Sr. Bispo, o jovem Almir passou por vários setores da panificação e, em algum tempo, assume a gerência dos negócio. Então, para surpresa do pai adotivo, dez anos depois, o jovem aprendiz chama o empresário e família para uma conversa. Num gesto bastante comovente, agradece aos mesmos por tudo de bom que lhes fizeram, pela confiança, pela oportunidade de mostrar ao mundo sua força de vontade, e fala sobre seu desejo de retornar a Aracaju.

O empresário não só concordou como ainda custeou suas despesas nos primeiros meses, até quando Almir conseguiu, numa sorveteria, uma vaga de vendedor de picolé, passando a manter e ajudar a sua irmã. Pois é, vendendo picolés Almir volta para as ruas, só que agora sob outro ponto de vista. Em suas rotas de venda, geralmente por bairros mais pobres de Aracaju, o jovem, ao se reencontrar com seu passado mais duro, através da observação de tantos pequeninos à margem da dignidade, tem uma epifania e identifica sua missão, seu compromisso nesta passagem terrena: “dar vida aos que só a vida têm”.

Agora ficava mais clara a decisão de abandonar o ambiente promissor da panificadora, a partir de onde ele poderia, em alguns anos, abrir o seu próprio negócio. Mas não era esse o propósito maior. Sem muitas posses materiais, Almir concentrava suas melhores intenções, seu carinho, sua entrega na única arma disponível e assim, através de um picolé embalado com palavras de consolo, enxugava num abraço cada lágrima que escorria sobre os cantos daqueles olhares famintos.

Com o tempo, o já conhecido “Tio Almir” era esperado por uma multidão de pequeninos, uma espera festejada por todos quando aquele homem apontava no início da rua. E assim o nosso personagem ganha o seu nome de guerra.

Decidiu então ampliar as armas do bem, e começou a reverter a renda dos picolés, a fonte do próprio sustento, em presentes para as crianças que passavam a ter um outubro e um dezembro mais colorido de esperança em dias melhores. Logo a renda se tornou aquém da demanda e Almir do Picolé, pela arma da humildade, inicia campanhas para arrecadação de presentes, visando ampliar a distribuição. A iniciativa cresceu tanto a ponto de alcançar a imprensa local e em seguida a imprensa nacional.

Nem o próprio Almir acreditava na proporção que tomou esse trabalho voluntário. Definitivamente não era mais apenas um carrinho de picolé e um homem. Eram dezenas, centenas de pessoas que acreditavam na seriedade, simplicidade e honestidade daquela causa, conduzida com muita responsabilidade e sobretudo fraternidade por Almir e seus colaboradores que começavam a ampliar em número e diversidade de aptidões, e Foi assim que o projeto recebeu uma série de doações permanentes, inclusive a do terreno para a construção da sede da nova Creche Ação Solidária Almir do Picolé, na localidade Piabeta, na Grande Aracaju.

03Em 2003 Almir participa de um programa em rede nacional, apresentando a creche, as dez crianças assistidas, e seus companheiros de serviço. Depois desta aparição na TV, esse número quadruplicou, e hoje, doze anos depois, ultrapassa a marca de oitenta crianças, de zero a quatro anos, que chegam à creche nos primeiros raios solares da manhã e retornam para suas casas ao final do dia, após quatro refeições, higienização, brincadeiras, muito amor e carinho. São filhas de mães solteiras assalariadas, criadas com avós, ou ainda órfãs de pais vivos, como o próprio Almir já foi um dia.

Tudo é mantido pelas doações nos semáforos, nos quais o próprio Almir se faz presente, pedindo, informando, apresentando a creche e recebendo apoio daqueles que se sentem movidos e inspirados a ajudar.
Além do cotidiano da creche, Almir mantém as ações solidárias do Dia das Crianças e do Natal, onde são distribuídos brinquedos e alimentos à comunidade. O sonho de Almir é impedir que crianças experimentem na vida as dores e privações do abandono e do desprezo aos quais muitas ainda estão vulneráveis.
O respeito e o apoio permanente que a Creche conquistou perante a sociedade em geral, reflete o nível de seriedade com que leva o projeto adiante, sobretudo quanto à sua independência de denominações político-partidárias. Não há palanques na Creche. Há apenas espaço para trabalho voluntário, e construção de fraternidade pura que visa o bem estar e o desenvolvimento dos pequeninos. Esse filme ainda está em desenvolvimento. Se o leitor quiser ajudar a construir esse roteiro, venha conosco. Conheça o projeto de perto e seja bem vindo!

Edson Magalhães Bastos Júnior.

Por: Edson Magalhães Bastos Júnior

Graduado em Geografia Licenciatura (2003) e Geografia Bacharelado (2006) pela Universidade Federal de Sergipe e Especialista em Geotecnologias pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Sergipe (2007). Atualmente é Técnico em Reforma e Desenvolvimento Agrário, no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - INCRA, em Sergipe. Ademais, desenvolve atividades na área de Geotecnologias, nos seguintes eixos: Cartografia Digital, Sensoriamento Remoto, GIS e WebGIS (Webmapping). Atualmente coordena a Diretoria de Geografia e Cartografia da Superintendência de Estudos e Pesquisas, na Secretaria de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão (SEPLAG/SE). Participa do Grupo Espírita Luz e Caridade, de Nossa Senhora da Glória, estuda música, Flauta Transversal, ama Rosana e sua princesa, Hannah.

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