A Religiosidade na Cultura Gloriense

- Professor Jorge Henrique - - 8 de Maio de 2014 | - 11:46 - - Home » 3ª Edição» Mais Glória - - Sem Comentários

200069844-001Em suas relações com o mundo, o homem se manifesta como potência criativa, o que lhe permite transformar o meio natural em seu benefício. O mundo assim construído, portanto, não é apenas um espaço físico ao qual se acomoda, mas também um espaço cultural, objeto de sua ação transformadora. Para que se compreenda esse espaço cultural é preciso que se busque compreender também esse homem em seu próprio desenvolvimento existencial. E, como o homem se encontra inserido em seu tempo, compreendê-lo e ao seu espaço cultural pressupõe buscar as relações de seu pensamento com a realidade por ele construída. O ser humano é, pois, um ser histórico que decide, cria, transforma, produz e comunica. Assim, relaciona-se com o mundo, cria, amplia espaços e integra-se à realidade e ao ambiente concreto. Nessas relações, organiza costumes, institui valores e define tendências comportamentais do momento histórico em que se insere, delineando assim sua identidade.

Durante o processo de desenvolvimento do município de Nossa Senhora da Glória, os costumes e os modos de relação do homem gloriense com seu meio permitem afirmar que a religiosidade é um traço marcante e significativo para sua cultura. De uma forma ou de outra, as pessoas do lugar sempre se viram envolvidas com motivos religiosos, seja relacionados a algum fato político ou social relevante, seja sob a forma de manifestações ou comemorações religiosas coletivas. A origem do próprio topônimo do município liga-se à participação de um religioso, que sugeriu o nome de uma santa da Igreja Católica e mobilizou a comunidade para que a aquisição da imagem fosse feita.

“Há cerca de trinta anos, essa festa contagiava e mobilizava todas as pessoas da localidade”

Da mesma forma, a instalação da agência dos correios, em 1924, teve “intervenção” religiosa, uma vez que a atuação do bispo de Aracaju na época foi essencial para levar a efeito esse projeto. Nos dias atuais, das manifestações coletivas mais relevantes para as pessoas do lugar, apesar da forte influência hedonista da cultura carnavalesca baiana, predominam ainda aquelas de motivo religioso, como a Festa de Reis e a Festa da Padroeira. A primeira, tradição do município, que durante muito tempo representou um momento único de integração entre as comunidades rural e urbana, realizou-se pela primeira vez em 1904, no então povoado “Boca da Mata”. Há cerca de trinta anos, essa festa contagiava e mobilizava todas as pessoas da localidade, que aguardavam ansiosas o momento, a fim de exibirem suas roupas novas, compradas exclusivamente para a ocasião. Todos se preparavam, quase que ritualisticamente, para a Festa de Reis. Na semana anterior à festa, quando chegava o parque, a rotina de vida das crianças do município inteiro já mudava. Além do parque de diversão e das comidas típicas, havia também os concorridos bailes na AABB e na Associação Glória Esporte Clube.

Atualmente, as festas de rua movidas a trios elétricos e bandas de axé, música sertaneja e forró eletrônico ganharam espaço, e, embora pareçam ostensivamente brilhar mais, ainda não sufocaram por completo o aspecto de religiosidade, a beleza e o encanto dessa manifestação cultural popular do gloriense. A segunda, outra festividade religiosa histórica do município, de grande significado para a nossa gente, comemora a vinda da imagem de Nossa Senhora da Glória para o então povoado “Boca da Mata”, em 1906. Desde essa época, anualmente, durante a primeira quinzena de agosto, começam as atividades religiosas, que se prolongam até o dia 15. Toda a comunidade católica se mobiliza para participar da tradicional Procissão dos Motoristas, da Alvorada Festiva e das missas matinais. Um costume que já se repete por muitos anos é a eleição da Rainha da Festa, selecionada mediante os resultados de campanha de arrecadação de donativos à paróquia, que ocorre ao longo do mês de agosto.

No domingo da festa, à tarde, eleita
a Rainha, todos saem acompanhando o andor com a imagem de Nossa Senhora da Glória numa gigantesca procissão pelas principais ruas da cidade. O ponto alto da festividade ainda é a queima de fogos, que ocorre à noite, após a missa na Praça da Matriz. Essas duas festas são, sem dúvida, as manifestações da cultura gloriense mais significativas para as pessoas do lugar. Elas ainda mantêm seu vigor – mesmo tímidas em sua religiosidade
diante de toda a influência de regiões hegemônicas como a Bahia, com seu processo de carnavalização, que tomou conta do Brasil. Ambas refletem ainda o caráter religioso do povo gloriense que constrói sua existência através da crença divina na superação dos obstáculos interpostos pela realidade. A persistência dessas festas traduz a índole de determinação desse povo na conquista de seu espaço e na expressão de sua identidade no sertão sergipano.

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