A importância do Poeta Gauchinho para as letras Glorienses

- Professor Jorge Henrique - - 5 de julho de 2016 | - 4:34 - - Home » 16ª Edição» Mais Glória - - Sem Comentários

gauchinhoO estudioso Antônio Cândido, em sua obra Formação da Literatura Brasileira, convida-nos a refletir sobre os elementos que consolidam um sistema literário num país, a saber: a existência de um conjunto de produtores literários, de um conjunto de receptores e de um mecanismo transmissor que ligue uns aos outros. Noutras palavras, é preciso que haja escritores, leitores e um processo de circulação dessas obras que permita que elas partam daqueles e cheguem às mãos destes. Para Cândido, quando isso se dá, inicia-se um processo contínuo que define uma tradição literária.

Ainda não é possível falarmos em uma tradição literária em Nossa Senhora da Glória, apenas em manifestações literárias. No entanto, cada obra publicada – algo que vem se tornando comum nos últimos anos – é um passo a mais nesse movimento que permitirá construí-la. Felizmente, muitos hoje trabalham empenhados nesse sentido. Exemplo disso é a fundação da Academia Gloriense de Letras, em 2012, cujo propósito é justamente estimular práticas de letramento literário que culminem no desenvolvimento de uma cultura letrada na região.

Entretanto, embora ainda não tenhamos essa tradição consolidada, é preciso que se reconheça a importância de alguns atores desse processo. É justo que se dê o crédito necessário a um dos escritores glorienses que mais tem contribuído para construí-la. Um poeta que há muito vem lutando com as palavras diariamente, elaborando uma das obras poéticas mais significativas que temos na localidade. Alguém que, sozinho, conseguiu reunir os três elementos necessários à construção de uma tradição literária, pois sempre produziu seus poemas, editou artesanalmente seus livros, divulgou-os na feira livre da cidade declamando-os pelo megafone e, fazendo que chegassem diretamente a consumidor, criou um público leitor e apreciador do cordel em Nossa Senhora da Glória. Falo de Luiz Alves da Silva, conhecido como Gauchinho.

Assim como o poeta João Firmino Cabral pode ser apontado como o grande nome do cordel em Sergipe, o mais notável herdeiro dessa tradição literária em Nossa Senhora da Glória é, sem dúvida, o poeta Gauchinho.

Nascido na Baixa Limpa, no município de Glória, cresceu ouvindo as histórias de trancoso e a poesia dos livretos de cordel que seu pai possuía. Já aos 10 anos de idade, aventurou-se na produção escrita, compondo sua primeira história a partir de uma discussão entre um crente e um cachaceiro em Santana do Ipanema. Eis os seus primeiros versos:

O mês passado eu estive
Em Santana do Ipanema
Vi um caso interessante
Que conto no meu poema
Foi um bêbado discutir
Com um crente que morava ali
Na rua flor da Jurema

Animado com o resultado de sua investida pelos versos de cordel, pois amigos e familiares passaram a admirar seu talento, decidiu escrever a história da própria família. No seu primeiro folheto, A luta de Sebastião pelo amor de Sauvelina, narra a trajetória de seu pai, que veio de Pernambuco para ganhar a vida em Sergipe e aqui conheceu sua mãe, Sauvelina.

Luiz demonstra ter consciência de seu papel como poeta do cordel e não só estuda essa tradição literária, como também estreitou laços com seus representantes mais significativos. Teve folhetos revisados pelo poeta Manoel d’Almeida Filho, um ícone do cordel brasileiro, e manteve um estreito laço de amizade com o grande poeta sergipano João Firmino Cabral, que lhe ajudou e ensinou muito dessa técnica poética.

Dono de aguçado senso de humor e de um olhar crítico, Gauchinho já escreveu diversos livros. Alguns foram publicados pela famosa Editora Luzeiro, de São Paulo, outros pela Editora Tupynanquim, de Fortaleza, administrada pelo seu amigo, o também poeta Klevisson Viana, e os demais foram editados artesanalmente e publicados pelo próprio autor.

Reconhecido por seu talento entre seus pares, foi eleito, por unanimidade, para integrar a Academia Gloriense de Letras e será recebido em Sessão Solene cuja data está por ser definida nos próximos meses. Sem dúvidas, o poeta Gauchinho já escreveu seu nome na história cultural de Nossa Senhora da Glória, mas muito ainda contribuirá para a formação de nossa tradição literária.

Festejemos nosso grande poeta!

Obra de Luiz Alves da Silva (Gauchinho)

– A luta de Sebastião pelo amor de Sauvelina,
– A B C dos cornos,
– A briga de Lula com o dragão da inflação,
– A madrasta maldita,
– A moça que foi ao inferno e dançou “tô nem aí”,

– A volta de Camões e as novas perguntas do Rei,
– As bravuras de Miguel e o amor de Luíza,
– As proezas de seu Lunga: o rei da ignorância,
– Discussão de um crente com um boiola,
– Encontro de Frei Damião com Pe. Cícero no céu,
– Estória dos dois compadres Josino e José,
– História do incêndio do ônibus de Santa Rosa do Ermírio/ SE,
– Luta de Antônio Silvino com o negrão desonrador,
– Madalena e Damião,
– O caçador da montanha e a princesa encantada,

– O itabaianense valente ou Juarez e Guiomar
-O poder da fé,
– Relato de um velho que operou da próstata,
– O romance do rei que voltou a palavra atrás,
– O vaqueiro destemido ou Daniel e Juliana.

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